A hora que chega para todos.
Seu relógio estava sempre cinco minutos atrasado. Não sabia o porquê, pois o acertava pelo menos uma vez por semana, mas era batata: no dia seguinte, ele estaria errado. No entanto, ele insistia em ficar com aquela peça única que havia sido presente de seu pai há apenas dois anos.
Ainda se lembrava da tarde fresca, quando seu pai entrou com esforço na casa da piscina, para encontrá-lo aos preparos de um mergulho. Pegou sua mão com forca. Provavelmente toda forca que restava no corpo que o tempo já havia feito o favor de consumir. Olhou o filho nos olhos e colocou o relógio em suas mãos. Disse que era muito especial, pois marcava a hora que chegava para todos.
O filho não entendeu muito bem, mas preferiu deixar por assim mesmo. Fez que sim para o pai e o acompanhou para dentro de casa, esquecendo-se completamente do seu encontro com a piscina.
Seu pai morreu na tarde seguinte e foi enterrado em uma cerimônia intima, mas nem por isso menos emocionante. As lágrimas também caiam do céu em forma de chuva, que não cessaram por dois dias.
Agora, dois anos mais tarde, ele ainda não entendia as palavras do pai, mas fazia questão de ter o relógio sempre em mãos, atrasasse o quanto fosse.
Tivera uma relação difícil com o pai. Sua mãe morreu quando tinha apenas três anos e apesar da fortuna da família, nada preenchia aquele vazio que sentia naquela casa cheia de cômodos, que no mínimo, não serviam para nada.
Pai e filho viviam distantes, em mundos diferentes. Coisa que não era difícil em uma casa tão grande. Podia ver a cidade inteira da sua janela, mas parecia não enxergar o próprio pai sentado do outro lado da mesa de jantar.
Viveram assim até que viver se tornou insuportável e o mais velho do clã deixou seu filho de 16 anos sozinho. Não sem antes de presenteá-lo com o tal relógio. Não sem antes contundi-lo com suas palavras uma última vez.
Hoje, não ligava mais para o passado e só usava o relógio pois era o único símbolo a mostrar que um vínculo entre os dois, não importa qual, havia existido.
E lá ia ele, acertar o relógio, sabendo que faria a mesma coisa dali a dois dias. Foi então que percebeu: os minutos não estavam atrasados. O relógio havia parado por completo. Isso não era possível, pois havia dado corda naquela manhã, como todas as outras.
Fez de um tudo que só faltou abrir a única herança que aceitara do pai, mas não descobriu o problema. Sentou exausto no sofá encarando o relógio. Foi então que se lembrou das palavras tão estranhas do velho, um dia antes de sua morte.
Por algum motivo, sabia que a tal hora havia chegado, mas não sabia que hora era aquela. Perguntou-se se iria morrer. Até segurou a respiração para ver se cairia duro no carpete que já estava naquele apartamento alugado há anos. Mas nada. Continuava vivo, e o relógio parado.
Cansado de esperar, foi a geladeira e procurou algo para comer. Achou um pedacico de queijo e enfiou de uma vez na boa. Pensou de morreria engasgado, mas quando sentiu que o pedaço de queijo chegava sã e salvo ao fundo se sua garganta, respirou aliviado.
Tomou um copo de água, em seguida para ter certeza de que o queijo havia feito sua viagem e retornou para o sofá. Pegou o relógio e viu que nada havia mudado. Ele marcava 14h30min da tarde e pelo que podia ver do seu microondas, já se passavam das 15 horas.
O que aquilo queria dizer? “A hora que chega para todos”. Que ele sabia, a tal hora era a morte, mas ainda estava vivo, e pelo jeito, fazendo hora extra.
Levantou-se e começou a passear pela sala, sempre jogando um olhar para sua herança que agora repousava no centro da mesa. Já estava ficando irritado, se não ia morrer, deveria pelo menos tentar esquecer tudo isso e viver.
Mas não conseguia. Acabava voltando para aquele sofá. Até que não agüentou e resolveu falar com um amigo.
Chegou à casa de seu confidente e contou-lhe tudo. Mas de nada adiantou, uma vez que o outro entendeu tudo menos ainda. Resolveu que levaria até a casa de sua antiga vizinha, que fora sua amiga em tantas tardes solitárias.
Porém, ela não fez outra coisa senão olhar para ele assustada. Nunca tinha ouvido do tal relógio misterioso.
Frustrado por não obter respostas, resolveu ir de uma vez por todas ao relojoeiro da cidade e pedir a opinião de um profissional. Mas dessa vez, não lhe contaria a historia. Deixaria que ele examinasse o tal relógio.
Voltou para casa paralisado. Não esperava pelo que o relojoeiro havia dito. Mas ele só podia estar certo. Era a única explicação. A hora que chegava para todos, havia chegado para ele: a hora de comprar um relógio novo.
Tais Berman Fadel